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Um panorama sobre a saúde mental das brasileiras

Ju Ferreira · 18 de novembro de 2024

Um panorama sobre a saúde mental das brasileiras

O mês da mulher acabou. Eu havia decidido escrever um artigo sobre a saúde mental das brasileiras, por ocasião do último final de semana do “mês da mulher”. Não que eu não ache que esse assunto importa o ano todo: eu acredito que cuidar da saúde mental das mulheres é um dos pontos principais para um futuro melhor. Acontece que nesse mês as questões do universo feminino estão mais visíveis à discussão.

Só que no meio do processo de escrever o artigo, algumas das informações eram tão espantosas que acabaram me “dando gatilho”. Pra quem não sabe, essa gíria “dar gatilho” é geralmente usada quando algo provoca um estímulo negativo, algo que gera uma forte emoção e pode provocar uma dor emocional. No fundo esse texto acabou por me recordar que também sou mulher, também faço parte dessas estatísticas todas que mostro aqui e que a minha saúde mental também precisa ser cuidada. Foi bom, porque às vezes precisamos mesmo lembrar de cuidar de nós mesmos. Vou falar um pouco mais disso por aqui, então, se em algum momento esse texto “der gatilho” em você, leitora ou leitor, veja que mais abaixo falo de como cuidar dessas dores emocionais que temos.

 Vamos lá então?

A saúde mental das mulheres é um tema de extrema importância e complexidade, merecendo uma análise detalhada para compreendermos os desafios que enfrentam e as estratégias necessárias para promover o bem-estar psicológico. Dados de pesquisas recentes fornecem insights valiosos sobre o panorama da saúde mental feminina no Brasil.

 Sobre a saúde mental no país:

Aproximadamente 10% da população mundial sofre com transtornos mentais, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Isso significa que cerca de 720 milhões de pessoas ao redor do mundo sofrem com problemas de saúde mental.

No Brasil, são quase 49 milhões de pessoas nesse cenário, o que coloca o país na indesejável liderança do ranking de ansiedade e depressão na América Latina.

Além disso, num ranking com índices de saúde mental entre 64 países, o Brasil ocupa a terceira pior posição, à frente apenas do Reino Unido e da África do Sul. Nosso país está 11 pontos abaixo da média global de saúde mental.

A COVID 19, somada à precarização da qualidade de vida em geral no Brasil piorou a situação, adicionando mais uma camada de preocupação para governos, empresas e a sociedade em geral.

 E as mulheres?

Mais da metade dentre as pessoas sofrendo com algum transtorno mental ou causado pelo uso de substâncias, antes da pandemia de COVID 19, eram mulheres. No Brasil, 7 em cada 10 pessoas diagnosticadas com ansiedade ou depressão eram mulheres.

No caso delas, a pandemia também afetou o quadro de saúde mental, piorando os indicadores. Isso se deve, além das questões de preocupações com a sua saúde e a dos seus entes queridos, à sobrecarga e às questões financeiras.

No que diz respeito à sobrecarga, já é sabido que a maioria das mulheres está sujeita à dupla (ou tripla) jornada, porque além de trabalhar e gerar renda para sua casa, elas  precisam dar conta dos cuidados com filhos (ou com algum outro membro da família), do trabalho doméstico, da limpeza e higiene, das refeições, das compras, de toda a rotina da família. E muitas vezes estão sozinhas. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) constatou, no  levantamento de Estatísticas de Gênero realizado em 2019, que as mulheres dedicam, em média, quase o dobro de tempo que os homens (21,4 horas contra 11 horas por semana) aos afazeres domésticos e cuidados com outras pessoas. Mais da metade das mulheres – 57% – entre 36 e 55 anos cuida de alguém (filhos, pais, outros parentes etc). Num recorte interseccional, metade de todas as mulheres pretas e pardas cuidam de alguém.

Já em relação à questão financeira, um recente estudo do governo apontou que as mulheres ganham, em média, quase 20% menos que os homens. Além disso, elas sofrem mais com o desemprego: dados do IBGE de 2023 mostram que a taxa de desemprego entre as mulheres é 53,3% maior que a dos homens. Considerando-se que, em geral, as mulheres são parcial ou totalmente responsáveis pela geração de receita nas famílias brasileiras – segundo o IBGE, 38% dos lares têm as mulheres como as principais ou únicas provedoras – esse é um problema social real.

O resultado dessa situação é o que é chamado de feminização da pobreza: de acordo com dados da ONU, mais de 70% das pessoas que vivem em situação de pobreza no mundo são mulheres.

Além disso, há o medo. Segundo uma pesquisa dos Institutos Locomotiva e Patrícia Galvão, 97% das mulheres têm medo de sofrer alguma violência. O estudo informa ainda que 74% delas já passaram por uma situação de violência. Assaltos, estupros e assédios sexuais foram citados como os fatores que geram mais medo. Isso faz com que as mulheres tenham que adotar medidas de segurança para andar nas ruas, que incluem mudar seu trajeto para evitar passar por locais desertos ou escuros, considerar não sair à noite e compartilhar sua localização com pessoas de confiança. 

Para completar o quadro, estão as pressões sociais que as mulheres enfrentam, que vão desde pressões estéticas até as pressões profissionais e em relação à família: as mulheres se sentem pressionadas a ser mães perfeitas, profissionais de sucesso e ainda estar sempre com boa aparência.

No caso da pressão estética (que pode parecer um tema de menor importância, quando comparado aos outros aqui, mas que não é, pois pode gerar forte ansiedade e até depressão entre as mulheres, principalmente as das gerações mais novas), estou falando dos padrões sociais de beleza feminina estabelecidos e reforçados constantemente (em epecial nas redes sociais e no marketing em geral). Esse tipo de pressão gera fenômenos como o “body shame” que se trata da vergonha do próprio corpo, o que leva meninas e mulheres a problemas psicológicos e até a procurarem procedimentos estéticos irreversíveis para mudar coisas em seu corpo e se encaixar nos padrões.

O “mito da mãe perfeita” também é algo que acompanha as mulheres desde o momento em que elas descobrem que vão ter um filho. Quando fazemos uma busca no Google pelo termo “nasce uma mãe, nasce uma culpa”, recebemos mais de 26 milhões de resultados, o que aponta como esse sentimento é popular entre as mães. Embora as mães muitas vezes não sejam as únicas cuidadoras da criança, muitas vezes elas sentem como se tudo o que acontecesse de errado com os filhos fosse sua responsabilidade, o que é uma carga imensa para carregar.

Já no que diz respeito às pressões profissionais, vemos o aumento da inserção das mulheres no mercado de trabalho, mas ainda existe muita discriminação. Por exemplo, há o binarismo entre a vida profissional e a escolha das mulheres pela maternidade, o que impacta o crescimento de carreira delas. Elas precisam constantemente provar que, apesar de serem mães (ou de poderem fazer a escolha pela maternidade no futuro), são boas profissionais e podem ser consideradas para todo tipo de cargo no mercado. 

Tudo isso somado gera problemas psicológicos de longo prazo nas mulheres. O Lab Think Olga realizou um estudo com 1078 mulheres, de 18 a 65 anos, em todos os estados do Brasil, e verificou que 45% delas já receberam um diagnóstico de ansiedade, depressão ou outro tipo de transtorno mental.

A ansiedade, sintoma mais frequentemente relatado na pesquisa, faz parte do dia a dia de 6 em cada 10 mulheres. Além da ansiedade e depressão, outros sintomas relatados foram o estresse, a irritabilidade, a baixa autoestima, a fadiga, a sonolência, a insônia e a tristeza.

Em resumo: as mulheres estão esgotadas. Essa é a conclusão do relatório do instituto.

 Mas há boas notícias também.

O mesmo estudo apontou que, 91% das mulheres afirmam que a saúde mental deve ser levada muito a sério e 76% estão tentando prestar mais atenção à ela, especialmente após a pandemia. Apenas 11% das mulheres entrevistadas afirmaram não cuidar da sua saúde mental de nenhuma forma.

Isso quer dizer que as mulheres estão atentas a esse tema, o que é relevante, dado que sua saúde mental está, em geral, tão pressionada e em risco.

As formas que as mulheres disseram utilizar, para cuidar da sua saúde, além das terapias, foram: atividades físicas, as práticas religiosas / espirituais, o tempo com a família e amigos, o autocuidado, a leitura e estudo, o cuidado com a alimentação, o contato com a natureza e os hobbies.

Com certeza há muitas formas de cuidar de si e de sua saúde e o fato de as mulheres encontrarem caminhos para se manterem saudáveis é fundamental.

É importante dizer que a responsabilidade pelo cuidado com a saúde mental das mulheres deve ser compartilhada por toda a sociedade: desde governos, até instituições de saúde, empresas e pessoas.

 Caminhos a seguir:

É fundamental que haja um esforço conjunto para abordar os desafios de saúde mental enfrentados pelas mulheres brasileiras. Isso inclui a implementação de políticas que promovam a igualdade de gênero, o combate à violência doméstica, o apoio às mulheres em situações de vulnerabilidade socioeconômica e o fortalecimento dos serviços de saúde mental comunitários.

Além disso, é essencial fornecer educação e conscientização sobre saúde mental desde cedo, capacitando as mulheres a reconhecerem os sinais precoces de problemas de saúde mental e a procurarem ajuda sem medo de estigma ou discriminação.

 Sobre os tratamentos para a saúde mental:

Um ponto que acredito fundamental reforçar é a necessidade de democratizar o acesso aos tratamentos de saúde mental. No estudo do Think Olga, 78% das mulheres relataram não fazer nenhum tipo de psicoterapia ou análise. 29% delas afirmaram que os tratamentos são muito caros (ou não cabem no seu orçamento), 11% disseram não ter tempo para a terapia e 7% colocaram que não têm profissionais disponíveis perto de si, além dos 49% de mulheres que declararam que pesquisam e se informam sobre saúde mental por conta própria.

Muitas vezes, a realização de um tratamento com acompanhamento profisional é necessário para a recuperação da saúde – ou mesmo para a manutenção dela. Caso você tenha lido esse texto, se identificado com alguns pontos e sinta que precisa do apoio profissional, busque ajuda. E se você conhecer alguém nessa situação, ofereça ajuda.

Essa pode ser a diferença na vida de alguém (e na sua própria).

 Referências:

Agência Brasil: Desemprego de Mulheres e Negros termina 2023 acima da média 

Agência Brasil: Mulheres têm mais medo de sofrer violência que os homens 

BBC: Dia Internacional da Mulher .

Cactus Instituto: 8 dados sobre a saúde mental das mulheres 

Correio do Povo: Pressão estética e saúde mental das mulheres 

CNS (Conselho Nacional de Saúde): Live sobre saúde mental no Brasil.

Dráuzio Varella: Carga Mental Feminina

Exame: Desafios da Carreira da Mulher 

Globo.com: Pressão estética e ditadura da beleza 

IBGE: Dados de saúde mental das mulheres

Lab Think Olga: Relatório Esgotadas 

Meio e mensagem: As mulheres estão mais esgotadas do que nunca 

Ministério da Saúde: Saúde Mental 

O Globo: Brasil tem terceiro pior índice de saúde mental em ranking com 64 países 

Revista Crescer: Nasce uma mãe, nasce uma culpada 

Saúde Business: O cenário de saúde mental no Brasil 

Terra: 97% das mulheres têm medo de sofrer violência 

UFSC: Sobrecarga das mulheres na pandemia 

Unimed Rio Preto: Saúde Mental no Brasil 

USP: Mulheres estão sobrecarregadas de obrigações, mais ansiosas e insatisfeitas 

UOL: Mulheres ganham menos que os homens 

Wellbe: Panorama de saúde mental no Brasil 

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