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Um dia na vida de uma brasileira vivendo no exterior

Ju Ferreira · 7 de novembro de 2024

Um dia na vida de uma brasileira vivendo no exterior

São sete da manhã e o despertador toca. A ideia (que parecia maravilhosa no dia anterior) é sair pra correr. Olho pela janela: o dia está cinza e gelado. Nem a pau vou colocar os tênis e sair correndo nesse frio. Desisto. Mas já estou acordada, então acho que seria gostoso aproveitar esses minutos pra falar com alguém, contar as novidades do dia anterior... Ontem conheci um cara numa festa e acho que gostei dele. Penso em ligar para a minha melhor amiga, mas são três da manhã no Brasil, então nada feito.

Vou então pra a cozinha e preparo um café. Sinto falta de comer um pão francês quentinho, direto do forno (ironia suprema, já que estou na França), mas me viro com o que tenho no armário.

Hoje é um dia importante, é minha segunda semana num estágio que estou fazendo e tenho uma reunião com os chefes para contar sobre o meu progresso. A reunião vai ser em inglês e, apesar de eu falar superbem a língua, fico preocupada com o que vou apresentar e com receio de que vá ficar nervosa na hora e me enrolar, então resolvo praticar os pontos que quero trazer. Passo a próxima hora falando sozinha, revisando números e objetivos.

Depois vou tomar um banho (rápido, porque a água é caríssima por aqui) e me arrumar (com 30 peças de roupa pra poder sair na rua). Saio, já meio atrasada, porque essa pontualidade britânica não veio no meu DNA, e corro pra pegar o ônibus – que por aqui, passa exatamente no horário. 8:07, nem um minuto a mais ou a menos. Já no ônibus é hora de começar um balé impossível: com toda a roupa que eu coloquei, estou cozinhando dentro do espaço fechado do ônibus. Me ponho a pensar no que sempre falam sobre os franceses – e seus odores. Eu acho que não é tanto a questão de não tomarem banho (ou de tomarem menos banho do que estamos acostumados), mas sim a roupa: como são muitas mudanças de temperatura e como é quase impossível vestir e desvestir os casacos num espaço tão apertado, as pessoas suam. E o suor cheira. E as roupas não são lavadas tão frequentemente quanto deveriam. Os pensamentos sobre máquinas de lavar e chuveiros ocupam a minha mente durante todo o trajeto até o trabalho – são 2 ônibus, 1 trem e 1 metrô pra chegar lá, o que é ótimo porque eu realmente precisava dessa distração. Faço uma nota mental para lavar meu casaco essa semana e entro na reunião.

A apresentação é um sucesso, estou bem feliz com os resultados e com o aprendizado. No almoço, claro que tenho vontade de comer aquele arroz com feijão gostoso, mas como não dá, vai ser quiche de queijo com salada mesmo. Termino a comida mais rápido que o resto do time – os franceses levam muito a sério cada refeição, e tomam seu tempo pra comer, conversar, fazer a digestão... Corro de volta pro escritório, quero aproveitar esse tempo pra mandar uma mensagem pra a Camilla, minha amiga. Talvez ela consiga me responder ainda de manhã, dedos cruzados.

No final da tarde, mais algumas reuniões e relatórios depois, vou embora. Nenhuma resposta da minha amiga – imagino que ela deva estar ocupada e vai me responder até o final do dia... Essas conversas assíncronas são chatas, nada se compara a ter uma conversa real.

De qualquer forma, estou feliz. Foi um dia ótimo e resolvo parar no meio do caminho, na Torre Eiffel para apreciar o fim do dia. Me ponho a pensar na oportunidade que estou tendo, no aprendizado, nas experiências... É uma vivência única e especial! Quando o sol se põe, vou pra casa. Mais uma hora de choque térmico entre a rua e o transporte público depois, chego em casa.

Já na minha casa, tomo um chá e como um lanchinho rápido, e vou pra a cama. De repente, me bate uma tristeza... Percebo que passei o dia todo sem falar uma palavra em português, sem conversar com ninguém no Brasil. Choro, sem conseguir entender direito porque. O dia foi excelente, mas ao mesmo tempo, é uma sensação estranha ter tanta coisa boa acontecendo e ninguém pra compartilhar essas coisas....

Pego um livro, da Cora Coralina, e abro no meu poema favorito. Leio em voz alta, pra ouvir a minha língua e me sentir mais perto de casa:

Eu sou aquela mulher

a quem o tempo

muito ensinou.

Ensinou a amar a vida.

Não desistir da luta.

Recomeçar na derrota.

Renunciar a palavras e pensamentos negativos.

Acreditar nos valores humanos.

Ser otimista.

Creio numa força imanente

que vai ligando a família humana

numa corrente luminosa

de fraternidade universal.

Creio na solidariedade humana.

Creio na superação dos erros

e angústias do presente.

Acredito nos moços.

Exalto sua confiança,

generosidade e idealismo.

Creio nos milagres da ciência

e na descoberta de uma profilaxia

futura dos erros e violências

do presente.

Aprendi que mais vale lutar

do que recolher dinheiro fácil.

Antes acreditar do que duvidar.

Sorrio. Durmo cheia de esperança para o dia seguinte.

Se você se identificou com um (ou vários) desses momentos, saiba que você não está sozinho. A vida fora do Brasil é cheia desses altos e baixos: ao mesmo tempo que é uma oportunidade incrível, a saudade sempre nos acompanha.

Ter apoio psicológico para entender e superar esse turbilhão de emoções é um passo importante para ter sucesso e felicidade nessa experiência, porque é fato que os desafios e os sentimentos virão e saber lidar com eles é essencial.

Na época em que eu morei no exterior (há milhões de anos atrás), não havia a opção de ter um refúgio digital, um espaço para compartilhar as minhas questões, em português e com alguém que entendesse a minha cultura e as minhas angústias.

Hoje, uma brasileira ou um brasileiro vivendo fora pode contar com esse suporte: seu relato de um dia normal na vida de um imigrante não precisa ser como o meu, carregado de solidão. A Ayumana nasceu dessa vontade de que todos os brasileiros no exterior possam viver essa oportunidade da melhor forma possível, com o suporte mental e emocional de que necessitam.

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