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Um desabafo de uma brasileira em Israel

Larisa Gorlovetzky · 11 de novembro de 2024

Um desabafo de uma brasileira em Israel

Israel é um país jovem, apenas 75 anos. Tem sua população formada por imigrantes, na sua grande maioria judeus que vieram de todos os lados do mundo viver no único país judeu do mundo. Um país formado na sua maioria por gente que veio traumatizada, porque foi perseguida e discriminada, principalmente após a segunda guerra mundial.

Vivo aqui há 14 anos. Nesse tempo, passei por algumas operações militares, muitos mísseis, ataques terroristas. Essa infelizmente é rotina daqui. As crianças desde de pequenas são ensinadas a se proteger. Em Israel, o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres. O número de pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós traumático é grande. Essas pessoas são reconhecidas e muito bem tratadas pelo governo em programas específicos para essa finalidade.

No dia 07/10/2023, o país acordou as 6:30 da manhã em um filme de terror: sofremos um ataque totalmente imprevisível e sem precedentes na história. Estamos vivendo nele até hoje, sem a mínima perspectiva de quando esse filme chegará ao fim. Grande parte da população masculina (e muitas mulheres também) foram no mesmo dia convocados pelo exército. A população que não foi convocada está totalmente concentrada em arrecadar dinheiro, comida, roupas, material de higiene e todo o necessário para dar suporte aos soldados e a toda a população que foi evacuada de suas casas ou que teve as suas casas destruídas pelos mísseis.

A rotina foi totalmente alterada. No trabalho, o comércio fechado, as crianças estudando por zoom porque as escolas estão fechadas. Por hora, centenas de sirenes antiaéreas e mísseis por dia, que podem ate nos pegar de surpresa na estrada ou no meio do banho. E várias idas ao abrigo antimísseis.

Não encontrei até agora uma pessoa que esteja conseguindo dormir. A tensão, o medo e a incerteza dominam. O país todo passa a noite acordado na frente da televisão. Há pessoas que comem em excesso, há pessoas que não se alimentam e todos têm dificuldade de atenção e concentração.

Por sermos um país pequeno, todos conhecem alguém que foi morto, ou sequestrado ou está desaparecido. Para muita gente, a rotina tem sido ir a vários enterros por dia. Famílias com marido, esposa, com vários filhos, netos que estão no exército.

Sabendo da necessidade que todos sentem de falar e serem ouvidos, muitos voluntários estão tentando dar suporte e atendem a demanda através de linhas de telefone, para quem tem necessidade de receber apoio. Psiquiatras e psicólogos também, inclusive em programas de televisão e rádio.

No momento todos estamos unidos e concentrados na guerra contra o terror e na recuperação física do país. Não nos resta outra opção a não ser “sermos fortes”. Não vemos a possibilidade de cair e nos entregarmos agora. Estamos todos ocupados em sobreviver e ajudar uns aos outros. O sentimento coletivo é muito forte. É como se um desse força ao outro nos momentos necessários (até porque todos caímos algumas vezes por dia). E é estar o tempo inteiro com a cabeça e corpo ocupados que tem ajudado a manter a saúde mental. Somos 9 milhões de pessoas vivendo em luto. Mas é bem claro e todos sabem disso: quando a guerra acabar, seremos uma população de 9 milhões de pessoas com transtorno pós traumático.

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O texto acima foi escrito pela Larisa Gorlovetzky e se trata de um relato pessoal do contexto atual de Israel.

A Ayumana está 100% comprometida com a saúde mental e emocional dos brasileiros, onde quer que eles estejam. Por isso, abrimos esse espaço para o compartilhamento de experiências: acreditamos que essa troca é importante para a manutenção da saúde integral dos brasileiros morando fora do país e a dos seus familiares e amigos.

Se você quiser compartilhar a sua história, escreva para nós. Vai ser um prazer ouvir você!

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