Ulisses e a Odisséia dos Brasileiros no Exterior
Ju Ferreira · 8 de novembro de 2024

Você já ouviu falar da Síndrome de Ulisses? Não, não estamos falando do herói grego do poema de Homero, que enfrentou monstros e deuses para voltar para casa, mas sim de algo que pode afetar os brasileiros que se aventuram pelo mundo em busca de novos horizontes: os imigrantes brasileiros no exterior.
“Síndrome de Ulisses” foi um termo cunhado pelo psiquiatra espanhol Joseba Achotegui para definir a Síndrome do Imigrante com Estresse Crônico e Múltiplo. Segundo Achotegui, não se trata de uma enfermidade mental, mas sim de uma reação que algumas pessoas apresentam aos vários fatores de estresse que ocorrem por vezes em uma migração.
Migrar é um ato inerente aos seres humanos: temos cerca de 281 milhões de migrantes internacionais no mundo, segundo a ONU. O número de brasileiros vivendo no exterior chegou a 4,2 milhões, conforme dados de 2020 do Itamaraty.
Ocorre que esses imigrantes, ao chegar no país de destino, se deparam com vários desafios – um novo contexto e cultura; questões de comunicação e de idioma; as saudades de casa, dos entes queridos, das comidas, do clima; a solidão e desconexão que estar distante pode provocar; pressões e expectativas sobre os caminhos para viver e ter sucesso na mudança; problemas de família e relacionamento; temas legais, de documentação e de oportunidades, entre tantas outras.
Todas essas adversidades podem levar a problemas físicos e mentais como, por exemplo, insônia, dores de cabeça, dores musculares, nervosismo, ansiedade, falta de memória ou confusão mental, que podem por vezes ser confundidas com depressão ou estresse pós traumático. Achotegui, que é secretário da Associação Mundial de Psiquiatria e é especialista em temas relacionados à migração, divide esses sintomas em cinco grupos:
Sintomas depressivos: tristeza, dor, sentimento de culpa e solidão;
Sintomas ansiosos: ansiedade, nervosismo, tensão e irritabilidade;
Sintomas de somatização: cefaléia, insônia, fadiga e dores osteomusculares;
Sintomas da função cognitiva: dificuldade de concentração, problemas de memória, desorientação temporal e espacial, confusão mental;
Interpretação cultural da sintomatologia: interpretações equivocadas dos sintomas que levam as pessoas a não entenderem ou não aceitarem o que estão vivendo.
Se você é um brasileiro vivendo fora do Brasil e está passando por algo assim, calma! A boa notícia é que com apoio (profissional, familiar e da comunidade), todos esses obstáculos podem ser superados.
O primeiro passo é identificar os sintomas e os fatores desencadeantes e trabalhar para resolver as questões que estão gerando o estresse. Claro que, por vezes há problemas complexos de resolver – como temas de documentação, de relacionamento ou mesmo de preconceito, mas podemos aprender a lidar melhor com cada uma dessas situações. É necessário um trabalho de autoconhecimento, para entender quais são os gatilhos que estão levando ao estresse e também de desenvolvimento das competências socioemocionais necessárias para lidar com esses fatos.
Outra coisa muito importante é a construção e fortalecimento da rede de apoio. Laços fortes e saudáveis podem ajudar o imigrante a enfrentar os problemas de forma mais positiva e a cuidar melhor da ansiedade provocada por eles. Assim, o apoio da família e da comunidade é essencial.
Claro que também é recomendável procurar um profissional. Um médico ou psicólogo podem avaliar melhor os sintomas e os sentimentos e indicar o melhor caminho a seguir. O grande desafio aqui é encontrar um profissional que entenda e consiga lidar de fato com o imigrante. Em uma entrevista ao UOL, Achotegui afirma que “muitas vezes os sistemas de saúde confundem os sintomas da síndrome de Ulisses com doenças mentais e tendem a “psiquiatrizar” o problema”. Por isso, é essencial buscar serviços de saúde que entendam os desafios migratórios e tenham familiaridade com essas questões.
Outras sugestões válidas são a de cuidar da saúde física (nutrir-se bem e praticar exercícios físicos são fatores-chave para diminuir a tensão e a ansiedade nesse contexto), criar um diário para anotar objetivos, conquistas e motivos de gratidão, exercitar a conexão com o Brasil, através de datas, comidas e conversas com os entes queridos que ficaram aqui, entre outras.
Então, se você está fora do Brasil e está sentindo algum (ou alguns) dos sintomas de que falamos aqui, ou se conhece alguém nessa situação, fique atento e procure ajuda para contornar esses problemas. Não é preciso fazer tudo sozinho e existem soluções, apenas não deixe para depois.
E conte com a Ayumana para acompanhá-lo em todos os passos do seu caminho pelo mundo afora!
PS.: Esse texto não foi escrito por um especialista em psicologia e não apresenta recomendações médicas ou psicológicas! Como curiosa e inquieta que sou, estava pesquisando aqui os desafios dos imigrantes brasileiros, me deparei com esse tema e resolvi fazer um post no blog sobre isso, porque acredito que muitas pessoas podem se identificar com essa situação.
PS2.: Se esse for o seu caso e você quiser conversar mais, pode mandar uma mensagem pra cá que teremos prazer em falar com você.
Referências:
Achotegui, J. Migración y crisis: el síndrome del inmigrante con estrés crónico y múltiple (síndrome de Ulises). Avances en Salud Mental Relacional / Advances in relational mental health Vol. 7, núm. 1. 2008.
BBC: O que é a síndrome de Ulisses, que afeta os migrantes
CNN: Número de brasileiros no exterior cresce e chega a 4,2 milhões
Jornal da USP: Imigrantes podem sofrer com uma condição de estresse múltiplo, a síndrome de Ulisses.
UOL: Síndrome de Ulisses afeta imigrantes e pode ser confundida com depressão
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