Em crise ou sofrimento emocional? Ligue para o CVV 188 — apoio emocional gratuito, 24h.
Ayumana
← Voltar para o blogexterior

Sábado de sol

Gabriel Paciornik · 11 de novembro de 2024

Sábado de sol

Entrando o outono em Israel, corre pela manhã um vento fresco que já não é mais de praia. Ao menos para as crianças, que são meio fiasquentas e fazem questão de entrar na água, que também já não está tão morna. Assim que neste último sábado (dia 7) seria nossa despedida da praia para esse ano.

Às 6:27 da manhã ficou claro que não. Sirene anti-aérea tocou por mais de 5 minutos. Não iríamos à praia, nem a lugar nenhum. Lá pelas 7:30 entendi que não só sábado, mas provavelmente nas próximas semanas. E agora, 2 dias depois, sei que não vamos a lugar nenhum. Mas o coletivo aqui não é só minha família. É o país todo.

Moro em Israel desde 1997. Passei por sei lá quantas guerras, pela 2a Intifada, pela 2a guerra do Líbano e nunca vi nada parecido com o que aconteceu e está acontecendo. Nunca, desde 1973, civis israelenses estiveram na mira de soldados a pé dentro do território israelense. E desde 1948 (ano da independência de Israel) nunca uma cidade dentro de território reconhecido e soberano havia sido ameaçada. Menos ainda por tropas no solo.

Vou me ater de especular como isso aconteceu. Onde foi que o governo e as agências de inteligência falharam. Há pouca informação e o que há não é confiável. Um dia, um inquérito será feito e, espero, os responsáveis punidos, necessárias reestruturações do sistema de defesa e político serão postos em prática e nove milhões de habitantes, árabes, judeus, druzos e cristãos, poderão novamente viver em paz, completamente quebrados e traumatizados pelo resto da vida.

As perguntas não cessam. E à medida que a guerra se desenrola surgem outras e outras que deviam ser retóricas, mas não. Onde está o exército? Onde está o governo? Cadê o Bibi? Por que o [ministro e ex-chefe do serviço de segurança interna] Avi Dichter foi ser entrevistado e não sabia responder nem se o primeiro ministro estava apto a governar? Qual será o objetivo dessa guerra? O que está acontecendo na fronteira norte [onde reina o Hizbollah]? Qual o envolvimento do Irã? Quando vão voltar as aulas? Ficaremos em sítio por meses? Que outra atividade mais posso fazer com as crianças?

Estou exímio em Minecraft. Jogo com meu filho mais velho e juntos construímos um castelo medieval no alto de uma colina, de frente a um vale verde. Meu cérebro associou com Beaufort, no Líbano. Aos que não sabem do que se trata (ao contrário do meu cérebro, que eu preferia deletar), há um filme baseado num livro. Ambos excelentes.

Fiz bolo de chocolate com eles e até trabalhei um pouco (conflitos do repositório e alguns erros no Linter… mais que isso, não consegui fazer muito).

Acima de tudo, fiquei no Twitter. Lendo um pouco, escrevendo muito. Talvez você tenha chegado aqui por lá.

Twitter (ou X, ou Xitter) é uma ferramenta complicada da qual já tenho alguma experiência. Mas me surpreendi para o bem. As mensagens de apoio e perguntas honestas foram muito (muito mesmo) mais abundantes que ataques e provocações. Tentei agradecer cada uma delas. Algumas mensagens eram tentativas de tatear minhas percepções a respeito dos palestinos, da ocupação e meu ponto de vista político. Acredito que seja uma forma de conseguir um aval de que eu sou “do bem” e podem confiar em mim.

Quando bem educadas, atendo a essas tentativas com cansaço da forma mais honesta possível. Porque é preguiça. Uma rápida busca por conteúdos meus pela internet e até mesmo no Twitter deixa claro meu posicionamento e minha movimentação já há 40 semanas para derrubar esse governo proto-fascista.

Mas não chego a me ofender. É claro que há uma turba sedenta de sangue por todas as partes, direita, esquerda, pra cima, pra baixo, dentro, fora e no meio e a suposição mais fácil (e preguiçosa) é que por eu morar em Israel, seja eu também um incondicional defensor de muita porrada e pancadaria. Sou sim! Mas só em rinha de político.

O caso é que me atenho, quase exclusivamente, a três assuntos. Informações oficiais puras; análise baseada nas informações (oficiais e não oficiais) e minha experiência aqui; e minha vivência pessoal. Às vezes misturo. E como se pode sentir pelo tom, costumo abusar de humor negro, sarcasmo, ironia e outros animais menos domesticados. Assim que quando falo de ter que proteger meus filhos na escadaria do prédio (falo disso em outro texto, depois, um dia), vem gente me cobrando a respeito da segurança das crianças palestinas. Se cito números de mortos no ataque do dia 7, outros me perguntam sobre o bombardeio em Gaza e quantos mortos lá. Como se alguém que fala seu relato pessoal deve ser “equilibrado” (entenda-se equilíbrio aqui como sendo doisladismos, whatabautismo, “coNTexTUaLiZaçaaaum” e não exatamente um ponto de vista justo).

Em quase toda briga, em absolutamente toda guerra, eu tenho um lado. O meu. E com toda empatia que tenho disponível no meu coração e todos os outros órgãos que contém empatia (a vesícula me ocorre agora), vou contar sobre o que ocorre na minha casa, na minha vida e sob meu ponto de vista. Informações complementares estão amplamente disponíveis pela rede afora para quem precisar, mas não me furtarei de divulgar o que seja relevante para contar minha história ou fazer minhas análises. Neste caso, não terei lado. (asterisco: como fiz em todos os outros conflitos: envergonhado e com raiva, em que divulguei informações, dados e detalhes sobre ataques israelenses em Gaza).

Vou escrever com a frequência que o tempo disponível me permitir e que minha saúde mental achar possível. Estarei também no twitter (https://twitter.com/gabpac) falando de coisas mais imediatas e no instagram (https://www.instagram.com/gabpac/) falando de minhas leituras, do meu livro (que abusa de humor negro, sarcasmo, ironia e outros animais menos domesticados) e uns desenhos que às vezes faço, tentando não deixar a política vazar para lá.

Peace ✌️

___

O texto acima foi publicado originalmente no blog do Gabriel e se trata de uma experiência pessoal gentilmente compartilhada com a Ayumana.

Se quiser conhecer mais os conteúdos do Gabriel, entre no link: https://desoriente.substack.com/, se inscreva e receba todos os posts.

Precisa conversar com alguém?

Encontre psicólogos brasileiros verificados, no Brasil ou no exterior.

Encontrar psicólogo