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Relatos de uma Intercambista

Maria Gabriela Martins · 19 de novembro de 2024

Relatos de uma Intercambista

No final do Ensino Médio me vi perdida por não saber qual profissão e carreira eu gostaria de construir para o meu futuro. Naquela época as cobranças vinham de todo lugar e lembro de me comparar muito com as pessoas ao meu redor. Achava que tinha algo de errado comigo e uma voz falava baixinho em minha cabeça: “Como todos os meus amigos já tinham em planos datados todo o planejamento de suas vidas e eu estava estagnada no meio daquele caos?”. Agora eu vejo que aquilo não passava, muitas vezes, de especulações e planos que não saíram do papel ou mudaram totalmente de percurso.

Eu sempre gostei muito de viajar, conhecer novos lugares, pessoas e culturas. Então, já acompanhava e conhecia algumas pessoas que tinham feito intercâmbio na modalidade High School, ou seja, iam para o exterior cursar o Ensino Médio. Me deslumbrava ao ouvir sobre a rotina e todas as histórias e experiências que as mesmas compartilhavam por meio das suas redes sociais e rodas de amigos. 

Diante desse cenário de incertezas, questionamentos, decisões e expectativas que se instalavam em mim no contexto final de conclusão do Ensino Médio, pensei que aquele era o momento ideal para escutar aquele sonho que estava adormecido. Busquei indicações, referências, falei com todas as pessoas que consegui para adquirir o máximo de informações sobre os processos, os diferentes programas de intercâmbios, prós e contras sobre a vida em cada país, melhores agências, acomodações e por aí vai.

Quando iniciei esse processo estava no meio do terceiro ano do Ensino Médio, então havia alguns programas que já não comportavam a fase em que eu estava. Segui minha busca e encontrei a melhor agência de intercâmbio e a melhor agenciadora que poderia existir, mas acho importante ressaltar alguns pontos aqui. Essa questão das agências é muito variável, conversei com pessoas que tiveram experiências incríveis com essa empresa, mas outras que também que tiveram o completo oposto. Por isso, busque muito, veja vídeos e converse com pessoas. Mas, principalmente, escute seus sentidos e seja claro quanto aos seus objetivos e expectativas em relação a sua experiência.

Após algumas reuniões e encontros com a agência, tudo estava certo com a papelada e, finalmente, estava acontecendo. Visto, passagem, passaporte e um endereço da casa de uma mulher, até então desconhecida, impresso em um papel sulfite com alguns detalhes sobre sua vida era o que eu tinha para iniciar essa jornada em Toronto no Canadá por 6 meses.

Com o passar das semanas a ansiedade, medo, felicidade, nervosismo, euforia e uma montanha russa de sentimentos se perduraram em mim e permaneceram, não vou mentir, durante toda a experiência.

Malas fechadas, cheias de saudosismos e lembranças de conforto. Ao chegar no tão esperado portão de embarque, me deparei com uma parte muito dolorida da experiência: a despedida. Deixar quem você mais ama, mesmo que por um tempo determinado, pode parecer desesperador e é, mas, ver aqueles olhinhos emocionados de tristeza pela partida, mas cheios de orgulho me deram forças naquele momento.

Agora, era eu por mim pela primeira vez na minha vida. É claro que possuía um suporte incondicional aqui no Brasil, tanto da minha família, amigos e da própria agência também, mas agora eu estava responsável por toda essa experiência que iria trilhar. 

Os primeiros meses foram como estar sonhando acordado, tudo era novo. As paisagens, o idioma, a culinária, as pessoas e a rotina marcavam a experiência que eu tanto planejei. Eu me entreguei com coragem e cabeça aberta para poder viver tudo e mais um pouco. Conheci pessoas incríveis que me mostraram tudo sobre suas culturas, pude viajar para vários países mesmo que, geograficamente, me encontrava em apenas um. Pessoas essas que até hoje tenho contato e compartilhamos de um sentimento saudosista em relação aos momentos que vivemos juntos, quando aqueles instantes era tudo que tínhamos.

Algumas semanas foram passando, e as despedidas novamente começaram a acontecer. Aqueles amigos que estavam comigo desde o início da jornada, agora iam seguir os seus próprios caminhos voltando para os seus países ou seguindo o seu percurso individual. Quando você vai passar um longo período em um único lugar, deve entender que as pessoas estão de passagem nessa sua experiência, contribuindo para os melhores momentos que você irá viver de forma limitada a um período. As amizades são intensas e as conexões ocorrem quase de maneira instantânea. Um dia você acabou de conhecer essas pessoas e nos próximos dias vocês formavam algo mais próximo do conceito de família e companheirismo. 

Alguns meses se passaram e o cenário havia mudado. Algumas coisas já não eram novidade e a saudade de casa apertava. Nesses momentos, mesmo que muito difíceis, vejo que foram cruciais para o meu crescimento e desenvolvimento pessoal. Era nessas horas que eu me questionava se havia feito a coisa certa, refletia sobre minhas ações e pensava sobre o futuro que queria trilhar. Durante esse sentimento de solidão, aprendi a ter a mim mesma como a minha melhor companhia e o conceito de solitude começou a fazer muito sentido para mim.

Por fim, gostaria de concluir esse relato dizendo que o intercâmbio foi uma das melhores decisões que eu pude tomar. Passei por experiências que me moldaram e desenvolveram o que havia de melhor em mim. Conheci pessoas de todo lugar do mundo que, da mesma forma que eu, estavam abertas para conviver e compartilhar de momentos inesquecíveis. Enfim, são incontáveis os benefícios de poder viver uma experiência dessa, mas quero deixar a minha frase de incentivo: vá! Apenas vá! Mesmo que esteja com medo, receio, inseguranças e incertezas, apenas vá viver o seu momento e conhecer o mundo da forma que ele é, e eu tenho certeza que valerá cada minuto.   

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