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Quando você é o olho do furacão

Gerson Mazer · 21 de novembro de 2024

Quando você é o olho do furacão

O ano era 2010. Eu era um jovem de 29 anos muito dedicado profissionalmente quando recebi uma proposta profissional da empresa em que eu trabalhava. Tinha uma vida muito boa naquele momento: um bom trabalho, um bom salário, uma namorada companheira... nada para reclamar.

A proposta: Ser expatriado para uma pequena cidade no norte do Peru, com apenas 2 horas de fuso horário, para ser o diretor financeiro da subsidiaria da multinacional brasileira em que eu trabalhava que entraria em operação naquele ano. Financeiramente irrecusável.

Eu fui!

O trabalho era realmente desafiador e eu estava muito animado. Precisava construir processos, estabelecer relacionamentos com bancos e parceiros peruanos e formar uma equipe apenas com trabalhadores locais (era uma das condições que a empresa havia negociado localmente na época da obtenção das licenças).

Pouco tempo depois da minha chegada, a multinacional brasileira vendeu participações da subsidiária peruana para uma empresa americana e outra japonesa. Mais um belo desafio!

O clima de Piura era extremamente seco, inclusive as operações da empresa eram realizadas no Deserto de Sechura a uma distância que levava aproximadamente 2 horas de viagem de carro/ônibus. Eu ia uma vez por semana visitar as operações e nos demais dias trabalhava no escritório que ficava no único edifício vertical da cidade. Meu nariz sangrava todos os dias e meus olhos não paravam de lacrimejar. Eu trabalhava de segunda a sábado praticamente 24 horas por dia, no escritório costumava entrar lá pelas 6 horas da manhã (para a reunião matinal com o Brasil onde eram 8 horas da manhã) e saia por volta das 22 horas. Tinha muita coisa para ser feita... As madrugadas eu ficava respondendo a turma do Japão... Minha namorada, a qual eu tinha “resolvido” o problema de comunicação na época com um rádio Nextel (ainda não tínhamos essa facilidade de ligar por whatsapp, facetime e etc em dispositivos móveis), praticamente não falava mais comigo. Falar por rádio fazendo bip bip o tempo todo não era agradável e sem contar que a hora em que eu chegava em casa já era mais de meia-noite no Brasil. Com a família não foi diferente.

Mas o desafio era realmente grande, eu estava motivado e entregando o meu melhor (pelo menos eu achava que estava entregando meu melhor). Mal me alimentava, comia alguma porcaria pronta em casa antes de sair para o escritório e quando voltava. Não parava para almoçar. Atividade física nem pensar, que horas faria isso? Domingo eu passava o dia largado na cama vendo filmes. Me parecia tudo normal. É só o início, faz parte, logo as coisas SE ajeitam...

Em menos de um mês eu adoeci. Precisei de ajuda em diversas frentes. Tomei “bolinha” pra dormir. Retirei celular e notebook do quarto durante as noites. Fazia reuniões de casa as 6 da manhã e depois me exercitava antes de ir ao escritório. Coloquei despertador para me forçar a fazer as refeições inclusive com a agenda bloqueada para ninguém em nenhum fuso poder demandar aqueles sagrados momentos. Voltava para casa mais cedo e conversava com minha namorada e familiares antes de retomar ao trabalho ao qual eu parava as 22 horas invariavelmente. Passei a incluir o sábado a tarde como final de semana e passei a fazer pequenas viagens de turismos pela região (ou até para fazer compras em supermercado “decente”) e frequentar ao churrasco dos brasileiros de domingo.

Não foi por falta de avisos que não percebi antes que tinham muitas coisas erradas. Precisei pifar para compreender o que TODOS à minha volta vinham me alertando. E diferente do que EU esperava (que as coisas fossem SE ajeitar), EU precisei ajeitar as coisas. Mas não foi fácil, contei com ajuda de amigos, familiares e muitos profissionais.

Olhando de fora é bastante óbvio. Relendo aqui o que escrevi até aqui nesse meu relato é bastante óbvio. Para mim naquele momento não era nada óbvio, eu precisava entregar.

Não preciso nem dizer o quanto minha produtividade melhorou quando passei a dormir, me alimentar regularmente e a me exercitar. Ter momentos de lazer e me distrair, falar com a minha namorada, amigos e familiares também foi fundamental. Tive uma prova extrema que o equilíbrio entre a saúde mental e física melhoraram as minhas entregas no trabalho. Continuei me dedicando bastante. Mas parei de me cobrar aquilo que ninguém mais além de mim me cobrava.

No olho do furacão eu não conseguia perceber tudo aquilo de óbvio que estava errado. Imagina quando não são situações tão extremas ou em hábitos desenvolvidos ao longo de muitos anos. Precisamos nos policiar para cuidar do nosso corpo, mente e saúde em geral. Um primeiro passo é dar ouvido a quem nos quer bem e procurar ajuda profissional se for necessário para sair da inércia.

Sem saúde física e mental, tudo fica mais difícil. Cuidem-se!

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