Onde o lar doce lar está
Daniele Silva · 11 de novembro de 2024

"Você já deve ter ouvido a frase 'o lar é onde o coração está', certo? Mas onde exatamente colocamos nossos corações? A quem nos apegamos?
Constantemente buscamos por segurança, estabilidade, constância... como se a vida fosse previsível e estável. Precisamos enfrentar conflitos, encarar desafios, fazer escolhas.
Procuramos um sentido, um propósito, buscamos pertencimento! Isso preenche nossa existência. Conquistamos isso através de nossas experiências, pela forma como somos acolhidos e validados por outras pessoas, pela sensação de fazer parte de algo, de pertencer ao mundo.
Mas e quando, por algum motivo ou destino da vida, nos vemos em um ambiente completamente novo, diferente? Como imigrantes, por exemplo. Nos encontramos em terras estrangeiras, onde as outras pessoas, que tanto influenciam nosso senso de existência e pertencimento, são completos estranhos para nós? Estranhos com os quais mal conseguimos nos conectar ou conversar, devido a idioma, cultura e costumes diferentes.
Como existir em um ambiente onde nada nos é familiar, onde não temos raízes profundas e somos desafiados constantemente pela dificuldade da imigração? A psicologia do imigrante entra em cena aqui, explorando as complexidades emocionais, mentais e sociais enfrentadas por aqueles que deixam sua terra natal em busca de um lar em um novo país.
A família, nosso primeiro relacionamento na vida! Também nossa primeira referência de existência e pertencimento. Como viver em um ambiente sem a presença dessa família, especialmente quando estamos longe de nossa terra natal, enfrentando as complexidades da imigração?
Quando alguém atravessa as fronteiras dos costumes e crenças que demarcam seu território físico e cultural de pertencimento, leva consigo a intensidade da essência humana em transformação. Ao entrar no campo de trocas simbólicas onde o "eu" e o "outro" (este último, estranho à primeira vista) se encontram em condições de compartilhar os mesmos espaços, surgem inúmeras possibilidades de interação entre eles. No entanto, uma premissa é, desde já, clara: tanto o residente habitual quanto o migrante internacional não serão mais os mesmos após esse encontro (Silva-Ferreira, 2019).
Neste contexto, surge a verdade fundamental de que existimos através do olhar do outro, mas essa não é toda a história. Há um processo profundo de autoconhecimento, validação e aceitação que ocorre internamente. É um processo no qual você não pode ser um estranho para si mesmo! Esta é a forma mais assustadora do desconhecido, a pior solidão que pode existir: a falta de pertencimento a si mesmo. Se você não se reconhece, não pertence a lugar algum. No entanto, ao se conhecer e aceitar quem é, você se torna senhor do seu próprio mundo. Construir esse entendimento é uma tarefa vital, e a responsabilidade por essa jornada é sua e somente sua. Este é o caminho pelo qual todos passam, mas poucos verdadeiramente exploram. É a essência da nossa humanidade: transformar o desconhecido em compreensão, a solidão em autenticidade, e a experiência em sabedoria. É assim que construímos não apenas nosso lugar no mundo, mas também nossa paz interior.
Se encontrar para ser encontrado. Pertencer a si para pertencer a algo. Podemos nos reinventar, recomeçar quantas vezes for necessário, dar novos significados à nossa história e escrever novos capítulos desse livro complexo chamado Vida. Sim, sempre será um desafio nos reinventarmos. Mas sempre haverá um lugar para nós, sempre haverá um lar, se conseguirmos acolher e reconhecer nossa existência e essência, nossas vulnerabilidades e fortalezas, especialmente em nossa jornada como imigrantes.
Permita-se enxergar e viver as possibilidades. É onde recomeçamos e construímos novas relações, superamos novos desafios e conquistamos novas experiências. E aprendemos muito com elas!
Priorizar a si mesmo é criar um lar, independente de território, cultura ou língua, mas é criar um lar onde seu coração deve estar: em você!"
Referência:
METAMORFOSES INTERCULTURAIS: O IMPACTO DA IMIGRAÇÃO NA SAÚDE MENTAL DE IMIGRANTES UNIVERSITÁRIOS LATINO-AMERICANOS1: https://portal.unila.edu.br/prae/arquivos/MetamorfosesinterculturaisOimpactodaimigraonasadementaldeimigrantesuniversitrioslatinoamericanos.pdf
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