O Retorno de Férias ao Brasil
Bruno Beraldo · 21 de novembro de 2024

Quem mora fora do Brasil sabe que as férias no país são como um abraço apertado depois de um longo tempo de espera. É rever a família, comer a comida que você cresceu amando, e se reconectar com aquele pedaço de você que ficou por aqui. Mas, por trás desses momentos felizes, também existe uma dor que muitos imigrantes conhecem bem: a de ter que voltar.
Cada vez que você retorna ao Brasil para umas férias, a saudade que você sente parece desaparecer, mesmo que por um curto período. Tudo parece familiar, reconfortante, como se nada tivesse mudado. Mas a verdade é que, no fundo, você sabe que esse momento é temporário. A volta para o exterior é acompanhada de um mix de sentimentos que incluem tristeza, saudade renovada e um sentimento de luto. Sim, luto. Como destaca Pauline Boss em seu trabalho sobre o luto ambíguo, “a perda sentida não é definitiva, mas a dor é real, pois o que se perde é uma parte de si mesmo” (Boss, 2000). Ao deixar o Brasil novamente, você sente como se estivesse perdendo algo importante mais uma vez.
Quando chega a hora de fazer as malas e voltar, muitos imigrantes passam por um sofrimento emocional profundo. É como se o coração ficasse dividido entre dois mundos: aquele onde estão suas raízes e aquele que você escolheu como lar temporário ou permanente. Essa dualidade pode causar um impacto emocional significativo, levando à tristeza, ansiedade e, em alguns casos, até a uma nova fase de luto. Como afirmam Grinberg e Grinberg (1989), “a migração é um processo contínuo de perdas e adaptações”, e cada retorno ao país de origem seguido por uma nova despedida reabre essas feridas emocionais.
Enfrentar esse ciclo de saudade e luto é um grande obstáculo, mas existem formas de aliviar
Como Lidar com a Saudade e o Sofrimento
Enfrentar esse ciclo de saudade e luto é um grande desafio, mas existem formas de aliviar esse sofrimento. Aqui estão algumas sugestões práticas:
1. Aceite seus sentimentos: Entenda que sentir tristeza ao voltar é normal. Não se julgue por isso; permita-se vivenciar essas emoções.
2. Mantenha contato regular: Mesmo à distância, manter contato frequente com a família e amigos no Brasil pode ajudar a minimizar a sensação de perda.
3. Crie um pedaço do Brasil onde você mora: Decorar sua casa com elementos da cultura brasileira, cozinhar pratos típicos ou participar de eventos da comunidade brasileira pode ajudar a manter viva a conexão com suas raízes.
4. Fale sobre seus sentimentos: Compartilhe suas experiências com outros imigrantes. Muitas vezes, eles passam pelas mesmas situações e podem oferecer apoio e compreensão.
Ana, uma paciente minha que mora na Austrália há sete anos, encontrou uma maneira eficaz de lidar com o luto pós-férias: ela criou um grupo de brasileiros que se reúne regularmente para compartilhar histórias, cozinhar juntos e manter viva a cultura brasileira. “Esses encontros são minha válvula de escape. Quando volto do Brasil, sei que vou sentir saudade, mas também sei que tenho uma comunidade aqui que me entende e me apoia”, disse Ana durante uma sessão. No caso de Ana, trabalhamos juntos para fortalecer essa rede de apoio. Sugerimos que ela organizasse atividades temáticas que remetessem ao Brasil, como festas juninas, para que ela e sua comunidade pudessem criar novas memórias positivas, mesmo estando longe do Brasil. Isso a ajudou a enfrentar o luto do retorno com mais resiliência e menos tristeza.
O ciclo de voltar e partir é uma realidade para muitos imigrantes brasileiros. Cada viagem de férias ao Brasil é um misto de alegria e tristeza, um momento de reconexão seguido por um luto renovado. Mas, ao entender e aceitar esses sentimentos, é possível encontrar formas de lidar com a saudade e o sofrimento emocional que acompanham o retorno ao exterior. No meu consultório online de psicologia, tenho visto como a psicoterapia pode auxiliar os imigrantes brasileiros a enfrentarem esses processos emocionais. Afinal, apesar da distância, as raízes que temos no Brasil nunca deixam de nos acompanhar, e é importante nutrir essa conexão, onde quer que estejamos.
Referências Bibliográficas
• Boss, P. (2000). Ambiguous Loss: Learning to Live with Unresolved Grief. Cambridge, MA: Harvard University Press.
• Grinberg, L., & Grinberg, R. (1989). Psychoanalytic Perspectives on Migration and Exile. New Haven, CT: Yale University Press.
• Schlossberg, N. K. (1981). A Model for Analyzing Human Adaptation to Transition. The Counseling Psychologist, 9(2), 2-18.
O nome “Ana” é utilizado como um nome fictício para preservar a privacidade da paciente.
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