O Impacto Psicológico da Imigração e os Possíveis Traumas
Bruno Beraldo · 14 de novembro de 2024

Para o imigrante, a "mala" assume a figura simbólica de sua identidade. Nela, reside toda a bagagem subjetiva construída por meio de sua cultura, experiências, sonhos, esperanças, medos e nostalgia. A cada chegada, ao incorporar mais uma "peça" e ao se despedir temporária ou permanentemente de elementos, lugares e pessoas que compunham sua essência em cada ponto de partida, o imigrante se reinventa. Em sua "mala", carrega sua herança cultural e seu projeto de existência, que leva consigo a cada chegada e partida. Nessa perspectiva, migrar significa constantemente "re-significar" o complexo conjunto de relações de apoio e desamparo proporcionadas pela cultura (Pieroni, Fermino & Caliman, 2014).
A migração humana, uma prática ancestral intrinsecamente ligada à sobrevivência, implica na busca por melhores condições de vida, alimentação, emprego e educação. Esse fenômeno, conhecido como "migração", é um reflexo da dinâmica social, representando uma constante adaptação das pessoas a novos ambientes. Isso engloba desde a tomada de decisões, preparativos, execução do procedimento, mudança física até a integração local. No entanto, a experiência migratória vai além dos desafios logísticos, abrangendo aspectos emocionais. Desde a complexidade da burocracia até as despedidas de entes queridos, a migração é emocionalmente exaustiva, fator que pode contribuir para um possível trauma.
O Processo de Imigração
Existem quatro etapas identificadas no processo de imigração que podem causar trauma:
Trauma pré-migração: Os eventos que uma pessoa experimentou antes da imigração – a razão pela qual a pessoa ou pessoas decidiram deixar seu país, ou país de nascimento.
Trauma durante o trânsito: A segunda fase que causa o trauma imigratório é quando a pessoa vivencia eventos traumáticos durante a imigração. Esse trauma é descrito como trauma durante o trânsito. Pessoas que são requerentes de asilo e imigrantes ilegais sofrem frequentemente traumas durante o trânsito.
Experiências traumáticas continuadas: Os requerentes de asilo e outros imigrantes podem sofrer traumas, uma vez que os países de acolhimento nem sempre são acolhedores. Essa forma de trauma é chamada de experiências traumáticas continuadas.
Estresse ou trauma pós-migração: Traumas adicionais podem ser causados devido às condições de vida precárias no país anfitrião. As razões para isso podem incluir desemprego, falta de apoio adequado e perseguição de minorias.
Somado ao trauma da imigração está também a questão do choque cultural.
O que é choque cultural?
O choque cultural se caracteriza como um estado inato de desorientação, tanto psicológica quanto física, que uma pessoa pode vivenciar ao ingressar em um ambiente ou cultura distintos. A ausência de redes de apoio social e a perda de autonomia podem agravar o choque cultural, manifestando-se de diversas formas:
. Ansiedade;
. Depressão;
. Perda de autoconfiança;
. Insônia;
. Luto – luto pela vida deixada para trás;
. Solidão;
. Sentindo-se isolado;
. Excesso de sensibilidade;
. Aborrecimento;
. Impaciência consigo mesmo e com pessoas próximas.
Como a imigração pode causar trauma?
Perda de identidade e familiaridade: Mudar para uma nova cultura pode resultar na perda de identidade e estrutura social familiar. Esse processo muitas vezes leva a um luto cultural, onde os migrantes sentem falta de sua língua nativa, dialetos regionais, estruturas sociais e redes de apoio.
Falta de ferramentas e recursos para adaptação: A adaptação pode ser difícil devido à falta de acesso a ferramentas e recursos necessários no novo país, seja por barreiras linguísticas, restrições financeiras ou desconhecimento sobre o que está disponível.
Experiências traumáticas pré-migração: além disso, muitos migrantes e refugiados podem ter enfrentado experiências traumáticas, como violência ou perdas familiares, antes ou durante a migração, o que é considerado traumático, independentemente do contexto mais amplo.
Incerteza e falta de estabilidade: A incerteza sobre políticas de imigração pode causar estresse e trauma após a migração, com o medo de deportação e dificuldades em obter autorizações de trabalho. O processo burocrático para obter a documentação necessária e a busca por caminhos para residência também podem aumentar o trauma, assim como mudanças na vida que afetam a elegibilidade.
A discriminação e o racismo podem piorar os efeitos do trauma antes da migração, especialmente se não houver ajuda desde o início. Ter dificuldades com a língua oficial ou uma cor de pele diferente pode ser usado como desculpa para rejeitar um migrante. Por exemplo, fatores culturais podem influenciar quando migrantes buscam moradia.
Em alguns casos, o impacto do trauma pode ser esmagador, deixando o indivíduo com uma sensação constante de perigo e lembranças dolorosas persistentes. Se essa experiência for dominante, a pessoa pode estar enfrentando Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), especialmente quando se trata do estresse e trauma associados à migração. O TEPT pode ser uma resposta significativa aos desafios emocionais enfrentados durante o processo migratório, indicando a necessidade de atenção e suporte adequados.
Se você ou alguém que você conhece estiver enfrentando desafios emocionais devido ao processo migratório, é fundamental reconhecer que buscar ajuda é um passo corajoso e valioso. Procurar apoio psicológico pode oferecer um espaço seguro para compartilhar suas experiências, compreender suas emoções e desenvolver estratégias saudáveis para lidar com as adversidades. Lembre-se de que você não está sozinho nessa viagem. Nós da Ayumana estamos dispostos a oferecer suporte e orientação.
Referências:
Foster, R. (2001). When immigration is trauma: Guidelines for the individual and family clinician. American Journal of Orthopsychiatry, [online] 71(2), pp.153-170. Available at: http://www.sjsu.edu/people/edward.cohen/courses/c3/s1/immigration_trau ma.pdf .
Limited, C. (2018). What is Culture Shock?. [online] Communicaid.com. Available at: https://www.communicaid.com/cross-cultural-training/blog/what-is-culture-s hock/ [Accessed 24 Jun. 2018].
Pieroni, V., Fermino, A., & Caliman, G. (2014). Pedagogia da alteridade: Para viajar a cosmópolis. Liber livro.
Precisa conversar com alguém?
Encontre psicólogos brasileiros verificados, no Brasil ou no exterior.
Encontrar psicólogo