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Inteligência Emocional hoje, amanhã e sempre

Ju Ferreira · 22 de novembro de 2024

Inteligência Emocional hoje, amanhã e sempre

A ansiedade foi identificada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como o mal do século. De acordo com dados publicados pela organização em um estudo mundial sobre saúde mental, em 2019, cerca de 301 milhões de pessoas no mundo todo apresentaram sintomas do transtorno de ansiedade.

Além disso, após a pandemia de Covid- 19, os números se agravaram ainda mais: foi constatado um aumento de 25% nos casos de transtorno de ansiedade ao redor do mundo.

No Brasil o quadro é muito preocupante: o país está no primeiro lugar do ranking da ansiedade mundial. São aproximadamente 18,6 milhões de pessoas diagnosticadas, o que representa mais de 9% da população. E os índices podem ser ainda maiores, considerando o estigma que existe sobre a saúde mental e as deficiências que existem no sistema de saúde nacional.

É fato que o estresse da vida, questões financeiras e de trabalho, entre outros fatores desencadeiam uma série de efeitos negativos à saúde como um todo, gerando repercussões negativas para a vida das pessoas que sofrem desse mal.

Por conta de tudo isso, a busca pelo equilíbrio e pela plena saúde mental ganham cada vez mais importância no nosso dia a dia. Alimentação adequada, exercícios físicos, técnicas de controle de estresse, psicoterapia: todas essas são ferramentas para manter a saúde – tanto a física quanto a mental.

O fato é que além de todo esse ferramental existe algo que é indispensável nesse contexto. O caminho para ter uma boa saúde mental – e uma boa vida – passa pelo cultivo da inteligência emocional.   

 

O que é inteligência emocional e por que ela é importante?

A inteligência emocional é a “capacidade de reconhecer nossos próprios sentimentos e os sentimentos dos outros, de nos motivarmos, e de administrar bem as emoções em nós mesmos e em nossos relacionamentos”.

Segundo Daniel Goleman, autor do livro “Inteligência Emocional”, esse tipo de inteligência pode ser definido por cinco fatores chaves: automotivação, autoconhecimento emocional, autocontrole emocional, empatia e inteligência social.

E por que isso importa? Porque o mundo atual nos apresenta continuamente desafios e problemas que mexem com o nosso sistema emocional e, a menos que nos preparemos para lidar com essas questões, podemos não reagir bem às situações e até desenvolver doenças que nos impeçam de ter uma vida satisfatória.

Imagine que estamos num avião, cruzando o oceano. É lá, do outro lado do mar, que está o que você deseja. Mas pra chegar lá, temos que enfrentar as turbulências do caminho. O que são essas turbulências? São os nãos, as derrotas, as frustrações, os constrangimentos, as críticas....

Vamos imaginar que o seu sonho seja abrir a sua empresa. Você se preparou pra isso, estudou o mercado, criou um produto, lançou sua marca e... As vendas não aconteceram! O que fazer nesse caso?

Ou então vamos pensar que o seu sonho seja viver de música. Você compõe algumas faixas e manda para várias pessoas que você conhece... Só pra receber uma chuva de críticas... O que fazer aqui? Desistir não é uma opção.

A resposta para esses casos é a inteligência. Temos que trabalhar nossa inteligência emocional, para persistir apesar dos contratempos, para pedir ajuda quando precisarmos, para estar preparado para receber feedbacks, mesmo que negativos, pra sair do outro lado da turbulência e alcançar o nosso sonho.

Existe uma definição que eu adoro, que é a de um gênio, o físico Stephen Hawking. Ele diz que “a inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança”.

Eu acredito que é isso mesmo. Estamos todos buscando viver bem e alcançar nossos sonhos. Mas, no meio do caminho, muitas vezes nos deparamos com obstáculos e somos obrigados a fazer ajustes na nossa rota para conseguirmos prosseguir. E é a nossa capacidade de adaptação a esses desvios, e de enfrentar esses empecilhos que determina o sucesso da nossa empreitada.

 

Os elementos da Inteligência Emocional

Quero detalhar o conceito da Inteligência Emocional, para que possamos entender do que se trata cada elemento e também como aplicá-lo na vida cotidiana.

Vamos lá:

 

1 - Automotivação:

É a habilidade de encontrar dentro de si os motivos para realizar o que for necessário para o alcance dos objetivos, independente das situações ou estímulos externos.

Fala-se muito sobre motivação. Existem palestras motivacionais, discursos motivacionais.... Mas vamos pensar juntos um minutinho: a palavra motivação vem de motivo, ou razão. E a sua razão pra alcançar o seu sonho é só sua! Todos os estímulos externos podem servir como inspiração, mas a motivação real tem que vir de você.

Como fazer isso? Praticando o autoconhecimento, entendendo seus pontos fortes e também buscando dentro de si o que faz você feliz e o motivo pelo qual vale a pena viver e enfrentar todos os desafios.

Mas, às vezes, isso não é suficiente, precisamos de uma força a mais. Conforme os problemas aparecem, podemos ceder aos sentimentos ruins e ficar desmotivados. Se nos deixarmos levar pela ansiedade, pelo mal-estar, pelo aborrecimento, dificilmente conseguiremos nos concentrar na tarefa que estamos tentando executar. Por outro lado, se estivermos motivados, encontraremos prazer na jornada e não perdemos a calma durante o período de espera pela gratificação que virá, quando atingirmos o nosso objetivo.

Uma dica importante aqui é desenvolver uma competência indispensável: o otimismo. Otimismo é a disposição para ver as coisas pelo lado bom e esperar sempre uma solução favorável, mesmo nas situações mais difíceis.

Além do otimismo vale ficar atento ao seu entusiasmo, que é a sua paixão por realizar o que você está fazendo. O entusiasmo é um dos sentimentos desencadeadores da automotivação, pois é capaz de gerar transformações de dentro pra fora que influenciam no seu comprometimento com o seu objetivo.

 

2 - Autoconhecimento emocional:

É a capacidade de reconhecer as próprias emoções e sentimentos. Importante também é fazer a correlação entre pensamento, sentimento e emoção. Pessoas com essa habilidade são melhores líderes da sua própria vida, e aqueles que não possuem essa competência ficam mais à mercê das suas emoções.

Nesse ponto, gostaria de revisitar a definição de emoção, sentimento e pensamento. As emoções são respostas bioquímicas, diretas e rápidas às circunstâncias do ambiente. Elas são formadas no nosso sistema límbico, que é a região mais primitiva do nosso cérebro. Já os sentimentos provêm de outro lugar do cérebro, o neocórtex. Eles representam reações às emoções e são influenciados por fatores como crenças, experiências pessoais e memórias. Os sentimentos envolvem processos cognitivos e ocorrem, muitas vezes, de forma subconsciente. Os pensamentos também são formados no neocórtex, e são representações e interpretações conscientes da nossa realidade. Cada uma dessas coisas influencia as outras, então é importante ficarmos atentos ao que acontece no nosso corpo e na nossa mente para aumentarmos esse autoconhecimento.

É vital mapear quais emoções, pensamentos e sentimentos são gerados por cada situação que ocorre no seu dia a dia. Precisa ter uma conversa difícil com o chefe? Saiu de casa atrasada e ficou presa no trânsito? Recebeu o feedback negativo de um colega? Está com dificuldade para dormir? O filho está tendo problemas na escola? O que você vê, pensa e sente? Conhecer suas emoções, seus pensamentos e sentimentos é essencial para que você saiba quais são seus limites, seus “gatilhos” e possa se preparar melhor para reagir a uma situação difícil que possa ocorrer.

Da mesma forma é importante saber quais são as coisas que te trazem paz, provocam emoções positivas e sentimentos bons. Existe alguma música que te traga emoções agradáveis? Talvez lembrar-se de um momento com o seu filho, sua esposa ou outra pessoa da sua família encha você de ternura. Ou mesmo ter um mantra ou uma frase que você possa repetir e pensar para trazer a tona sentimentos de confiança e esperança.  Por que isso é significativo? Porque, num momento onde uma adversidade se apresenta, sempre podemos recorrer a algo que acalme nossa mente e nos faça lidar melhor no momento.

 

3 - Autocontrole emocional:

É a habilidade de lidar com os próprios sentimentos, ajustando o seu comportamento a cada situação vivida. Uma vez que temos consciência das emoções negativas que nos bloqueiam, podemos usar a razão para vencer a barreira. O autocontrole trata do uso da mente para criar mecanismos para superar a tristeza, medo, dúvida, raiva etc.

A coisa mais significativa no que diz respeito ao autocontrole é o uso do raciocínio. Ou seja, aqui o essencial é pensar e não se deixar levar pela emoção. Assim, a primeira dica é evitar a impulsividade. Se alguma coisa acontecer e você tiver vontade de reagir muito rápido, respire! Conte até dez. Se a questão for alguma conversa difícil, deixe para o dia seguinte. Examine suas emoções e seus sentimentos com relação ao assunto, e as consequências possíveis das suas atitudes. Coloque tudo isso num papel. Crie cenários e decida o que fazer somente quando já tiver racionalizado tudo isso.

No início é difícil, as vezes temos a tendência a falar e fazer coisas sem pensar. Mas o que ajuda no desenvolvimento do autocontrole é a prática. Então experimente desenvolver esse hábito, e periodicamente revise as situações onde você não conseguiu se controlar, para avaliar o que fazer da próxima vez.

Exercer o autocontrole nem sempre é fácil, mas às vezes é essencial. 

 

4 - Empatia:

Capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreender a sua visão da realidade, percebendo seus sentimentos e emoções e estabelecendo um vínculo de proximidade de confiança. A empatia envolve três componentes: afetivo, cognitivo e reguladores de emoções. O componente afetivo baseia-se no entendimento de estados emocionais dos outros. O cognitivo refere-se à capacidade de racionalizar a perspectiva psicológica de outras pessoas. Já regulação das emoções visa a adequação da intensidade e duração de sua reação emocional ao contexto do outro.

Praticar a empatia não significa necessariamente concordar com o outro. Trata-se de ouvir suas necessidades e percepções e, a partir do ponto de vista do outro, se comunicar.

No mundo de hoje, a empatia é uma competência cada vez mais essencial. Existem muitas opiniões e atitudes extremas na nossa sociedade, que causam rupturas e estresses consideráveis. Assim, ser uma pessoa que consiga ouvir, praticar a empatia, colocar-se no lugar do outro e entender porque a pessoa pensa como pensa e faz o que faz, coloca você numa posição privilegiada, e isso com certeza fará com que tenha relações melhores – e também uma vida melhor.

 

5 - Inteligência social:

Habilidade de criar e administrar relacionamentos saudáveis, encontrando pontos em comum e criando afinidades. Um relacionamento é, em grande parte, a habilidade de gerir emoções e sentimentos de outros. Pessoas com esta capacidade são mais eficazes em tudo o que diz respeito às interações interpessoais, são melhores líderes, são mais populares, e são mais felizes.

Daniel Goleman considerou a questão da inteligência social tão importante que, anos após escrever o livro “Inteligência Emocional”, ele publicou outra obra focada unicamente nesse assunto, o livro “Inteligência Social”.  

Podemos praticar nossa inteligência social a todo momento, em cada conversa, cada interação, procurando identificar os outros elementos da inteligência emocional nos demais, encontrando maneiras de nos comunicarmos melhor, gerarmos melhores emoções através de nossas palavras e ações.

 

Inteligência Emocional hoje, amanhã e sempre

É fato que não é fácil exercer a nossa Inteligência Emocional a todo momento, mas praticar os elementos e cultivar essa competência nos leva a ter uma vida mais plena e saudável.

Um ponto importante a considerar é o papel que outras pessoas podem ter no desenvolvimento da nossa Inteligência Emocional. Embora esse seja um trabalho pessoal, muitas vezes é difícil conseguirmos nos livrar de emoções ruins e sentimentos prejudiciais – ou mesmo vermos um caminho a seguir. Sendo assim, é relevante conseguir ajuda para empreender essa jornada. Ter o apoio da família, amigos e seres queridos faz com que possamos nos sentir seguros nessa descoberta dos nossos pensamentos, sentimentos e emoções. A ajuda profissional de um psicólogo também é valiosa: o trabalho feito durante a terapia, de exploração da nossa mente, a partir de um ponto de relativo distanciamento dos possíveis problemas (falamos sobre os desafios e aquilo que sentimos durante as situações depois de tê-las vivido), é vital para ampliar o nosso entendimento sobre nós mesmos – e para nos dar condições de enfrentar melhor quaisquer dificuldade.

Sendo assim, o meu desejo para todos nós é Inteligência Emocional hoje, amanhã e sempre. Que possamos encontrar bons companheiros para essa jornada de autoconhecimento e autodesenvolvimento, que possamos praticar todos os dias as técnicas que fortaleçam a nossa mente e nossas emoções e que possamos, a partir disso, ter uma vida cada vez melhor.

 

Referências

Ansiedade e depressão são consideradas ‘mal do século’

Brasil está entre países com a pior taxa de saúde mental

O cenário da saúde mental no Brasil

Goleman, Daniel – Inteligência Emocional, Editora Objetiva, 1995

Goleman, Daniel – Inteligência Social, Editora Objetiva, 2019

 

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