A imigração e o choque cultural: um relato
Ju Ferreira · 21 de novembro de 2024

Você conhece alguém que imigrou recentemente ou está prestes a se mudar do país? Ou você mesmo está nessa situação? Então esse artigo é para você, para que você possa identificar os possíveis desafios e se preparar para a jornada à sua frente.
Os primeiros dias
Foi com alegria e entusiasmo que Alfredo recebeu a notícia de sua aprovação para o intercâmbio. Estudante de Engenharia em uma reconhecida instituição mineira, ele se inscreveu para um programa de estudos de um ano na Europa e foi aceito.
Alfredo é um rapaz muito inteligente e determinado. Suas notas durante a escola sempre estiveram entre as melhores da turma e ele cultivou por muitos anos o sonho de estudar fora e ter uma experiência internacional no seu currículo e na sua vida.
Apesar do seu desempenho escolar, Alfredo não era um “nerd” típico: ele nunca foi uma pessoa socialmente incompetente, pelo contrário, era divertido e carismático. Aonde quer que ele fosse, Adolfo era a alma do lugar, fazendo todos rirem com seu humor peculiar. Ele também era muito afetivo, carinhoso e ligado à família. Sua mãe relutou em concordar com a mudança de país do filho querido, mas vendo o quanto Adolfo estava empolgado com aquela oportunidade, concordou em apoiá-lo.
Foi assim que Alfredo fechou as malas, 21 anos atrás, e partiu para a França. Ele falava um pouco de francês, conseguia se comunicar e acreditava que não “passaria aperto” na viagem. Ele também tinha dois amigos que viajariam com ele, eram colegas de faculdade e tinham sido aceitos no mesmo programa.
Quando Alfredo chegou, se instalou no dormitório da Universidade e foi conhecer os novos colegas. Havia muitos brasileiros, de todos os estados, entre os estudantes daquele ano e ele ficou ainda mais confiante de que tudo daria certo.
O primeiro mês foi maravilhoso: era o verão francês e intercambistas do mundo todo estavam em um curso especial, preparado para facilitar a adaptação e integração de todos ao país, ao campus universitário e ao curso de engenharia na França.
Além das aulas, aconteceram festas e viagens, e Alfredo aproveitou tudo ao máximo. Alguns dos brasileiros que estavam ali eram incríveis, divertidos, inteligentes e ele rapidamente formou um grupo de amigos, com quem fazia tudo.
O desencanto
Quando o curso regular começou, os problemas vieram junto. Ali, os imigrantes não eram maioria e ele tinha que acompanhar o curso junto com os franceses. Suas notas despencaram e ele começou a sentir ansiedade por pensar que não seria aprovado nas matérias que estava cursando.
Além disso, ele não conseguia fazer novas amizades. Seu humor, que até então sempre fora sua “arma secreta” para conquistar as pessoas, não parecia ter efeito ali. Na verdade ele sentia que seu conhecimento da língua francesa não era suficiente... Embora ele conseguisse se comunicar, ele não conhecia as sutilezas do idioma e não conseguia responder com rapidez, nem fazer suas “piadas” habituais.
Seus dois amigos logo começaram a sair com garotas e também se afastaram. Alfredo ficava muito tempo com a turma de brasileiros que havia conhecido no início do curso e sentia que não estava conseguindo evoluir: nem no seu conhecimento do francês, nem na sua experiência no país.
O inverno chegou e as coisas pioraram: ele ficava doente muitas vezes, tinha uma gripe persistente e, por conta disso, parou de sair para se divertir. Sua rotina consistia em acordar, ir ao refeitório comer (e ele tinha cada vez mais saudades da comida da sua casa!), assistir às aulas e voltar para o dormitório. Se sentia isolado e cansado. À noite, não conseguia dormir, mas durante o dia, tinha sono e ficava exausto. Durante as aulas, não conseguia se concentrar.
Alfredo passou a sentir uma tristeza e um desânimo constantes. Sua mãe, que tinha sido resistente à mudança desde o início, acompanhava tudo de perto e passou a insistir com ele para que ele voltasse para casa.
A decisão
Sete meses depois de chegar na França, Alfredo decidiu voltar ao Brasil. A sua saúde – tanto mental quanto física – estava prejudicada e ele achou que era hora de cuidar disso. Fez as malas, se despediu dos amigos e voltou pra casa.
Finalizou sua graduação, entrou numa empresa grande e iniciou uma carreira de muito sucesso.
Com o tempo, sua saúde mental ficou bem, ele voltou a sorrir e voltou a ser o antigo Alfredo: alegre, espirituoso e divertido.
O recomeço
Acontece que Alfredo não era de desistir de nada. E aquele retorno prematuro ficou na sua cabeça: ele não tinha conseguido aproveitar a experiência na sua plenitude e sempre que ele pensava no intercâmbio ele sentia um gosto amargo de decepção.
Ele decidiu então recomeçar a sua jornada. Ele precisava se preparar melhor. De cara, ele precisava estudar mais a língua, para poder ser ele mesmo, o Alfredo autêntico, divertido, falante que ele era. Ele também precisava criar uma rede de apoio fora do Brasil, para ajudá-lo no caso de desafios ou problemas. Ele também teria de se equipar melhor para os meses de frio: ele começou a desenvolver a meditação, a praticar exercícios físicos que ele pudesse fazer indoors (ele sempre foi adepto de correr na rua, mas – durante a sua primeira experiência no exterior – no inverno, como isso era impossível, ele tinha ficado sem se exercitar e a falta de exercício tinha deixado ele ainda mais desanimado e doente). Fora isso, ele buscou ajuda profissional: começou a fazer terapia para lidar com as memórias da experiência vivida e também com as ansiedades quanto ao futuro.
A conquista do sonho
Seis anos depois, Alfredo voltou a fazer suas malas e partiu novamente em busca do seu sonho. Dessa vez, ele estava casado e tinha uma posição de destaque em uma multinacional francesa.
Claro que, como na sua primeira experiência, ele passou também por desafios. Teve que se mudar duas vezes de casa nos primeiros meses. Apesar de estar proficiente na língua, em alguns momentos teve dificuldade de se expressar no trabalho. Sua mulher teve problemas de adaptação, que ele ajudou a minimizar e equilibrar. E, poucos meses depois de chegar à França, ele descobriu que iria ter seu primeiro filho...
Talvez em um outro momento, tudo isso tivesse levado Alfredo a retornar ao Brasil, mas ele estava tão determinado e preparado que passou pelos problemas com tranquilidade. Ele estava feliz por ter outra oportunidade e em paz com a vida que estava levando e com o objetivo conquistado.
Alfredo ficou mais 8 anos na Europa, seus filhos Bruno e Pedro nasceram por lá, sua esposa aprendeu francês e inglês, eles cresceram profissionalmente e conseguiram formar uma família alegre, unida e amorosa.
Quando ele retornou ao Brasil, foi por ter recebido uma proposta profissional irrecusável e por achar que já era hora dos filhos conhecerem mais e se integrarem com a cultura do país de origem dos seus pais.
Alfredo às vezes sente falta de morar na França. Ele tem vários amigos por lá e viveu muitos momentos importantes da sua vida no país. Mas ele sente que conquistou seu sonho e que completou a experiência que ele, muitos anos antes, se propôs a viver.
Como eu conheci o Alfredo
Alfredo é um nome fictício, mas a pessoa que eu trago aqui nesse artigo é real. Eu conheci o Alfredo naqueles primeiros dias do curso de verão na França. Viramos amigos desde o primeiro dia.
Vi o Alfredo “perdendo a sua cor” ao longo dos meses. Ele, que ganhou o prêmio de comédia no show de talentos que fizemos entre os brasileiros, ficou cada vez mais introspectivo e calado. Eu acredito que ele tenha vivido um choque cultural muito forte e que isso tenha sido impactante demais para a sua saúde mental. Estive entre as pessoas que apoiaram a decisão do Alfredo, de voltar ao Brasil – acho, até hoje, que foi a melhor decisão.
Mas eu nunca perdi o contato com ele e fiquei muito orgulhosa e feliz, quando ele decidiu imigrar novamente. Eu tenho a firme crença de que o processo da vida não é linear e que muitas vezes caímos e precisamos recomeçar.
Eu acho que a história do Alfredo é uma inspiração para as pessoas que pensam em imigrar: algumas pessoas podem pensar que tudo são flores ou que temos que terminar tudo o que começamos, mas a verdade é que reconhecer os nossos limites é também um sinal de força – e também que é possível recomeçar, sempre que quisermos.
Falei recentemente com o Alfredo. No meio da conversa, lembramos daquele tempo triste em que ele estava tentando tomar a decisão de voltar ou não para o Brasil. Logo em seguida, começamos a falar de filhos e das lições que queremos deixar para os nossos.
Ele me disse (com o humor que lhe é peculiar): “Não quero gastar tanto tempo em inventar frases novas, já que os velhos chavões já dizem tanto. Pros meus meninos, vou dizer sempre o que aprendi com a minha experiência”. E começou a recitar o seguinte:
“Nunca desista dos seus sonhos, mas saiba que ninguém chega lá sozinho. No final, tudo dá certo. Se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim. Tudo acontece por uma razão. Buraco é apenas primeiro passo para plantar uma nova flor. Siga seu coração. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”
Rimos muito. Anotei todas as frases (afinal, nada como um bom cliché para explicar a vida, não é mesmo?!).😊
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